sábado, 1 de setembro de 2012

A fome invisível aos nossos olhos


De meia idade, homem com barba por fazer há anos. Pele morena do sol, da nascença e da sujeira das ruas. Tinha as roupas gastas. Não eram próprias, mas doadas por outros, não como um presente, mas como um alívio de quem se livra do que já não mais serve ou ocupa espaço no armário. Sentia dentro de si uma falta, uma ausência: uma fome tênue que lhe doía e ninguém percebia.

Era por volta do meio-dia. O homem olhava fixamente para a vitrine de uma loja como se estivesse hipnotizado pelo desejo de ter para si as mercadorias ali expostas. O desejo não era pelo pão velho ou pelo prato frio, aliás, apreciados há pouco, dados pelo dono do restaurante ao lado. Mas sim pelos clássicos ali enfileirados do John Wayne, Greta Garbo e Charles Chaplin no velho sebo da Rua Benjamin Constant, 48, Centro de São Paulo.

domingo, 17 de junho de 2012

Dia de um Dejotiano

Sexta-feira à tarde, mais um dia de Departamento Jurídico, porém, no meio de semana de provas e com um relatório de várias páginas a ser feito para conseguir três créditos no programa de cultura e extensão.

Cheguei mais cedo, por volta do meio-dia, para que até o final do dia tivesse esse relatório pronto e pudesse voltar pra casa tranquilo. Não pretendia dar nenhuma orientação a qualquer assistido já que estava atrasado 
com certos afazeres burocráticos. Não foi bem o que aconteceu.

Não havia muitos estagiários presentes no dia e havia um número considerável de pessoas aflitas esperando que alguém lhes desse uma orientação jurídica sobre os problemas mais diversos. Um pouco frustrado, por estar com o sono atrasado e por perceber que não sairia do DJ antes das 7 da noite de sexta num dia em que não era o meu plantão, acabei pegando não um, mas dois atendimentos. Afinal, os clientes precisavam de ajuda e se eu poderia fazê-lo, não tinha o porquê reclamar. Afinal, se você está no DJ está lá pra ajudar e pronto.

Ambas se referiam a direitos trabalhistas. O primeiro era o caso de uma senhora que deu o nome para que o sobrinho pudesse abrir empresa. A empresa faliu e estava sendo demandada judicialmente por empregados. A sentença deu provimento aos funcionários de tal modo que a velinha teve a sua conta bloqueada judicialmente. Não tinha muito como lhe ajudar, precisava dar um puxão de orelha no sobrinho desleixado e mandar que este pagasse já que, a não pelo nome de sócia, ela nada recebia ou participava na empresa. A orientação foi rápida.

A segunda parecia mais simples e não pareceu que iria se alongar muito mais que a outra. Era um senhor bem-humorado de Praia Grande, um tanto quanto angustiado na verdade, que queria tão somente saber o que aconteceu com o processo dele e se ele tinha algum direito a receber. Peguei o número do processo, entrei no site do Tribunal para fazer a consulta e constatei que o processo trabalhista iniciado em 1991 foi arquivado em 1993 com provimento parcial. O meu discurso já se preparara em poucas linhas de tal modo que previa que poderia voltar pra casa mais cedo.

Ora, pensei, bastava dizer a este senhor que não tinha mais direito a nada, seja por prescrição, seja por força da coisa julgada. Bastava dizer que o que ele podia pedir, já foi pedido e se não o fora, nada mais poderia ser feito. Mas não foi bem assim.

Ao ouvir melhor o cliente, descobri que o advogado dele nunca o avisou sobre o término do processo e, inclusive, na semana passada, o cliente ligou para ele que, por sua vez, disse que o processo estava em andamento em não tinha nenhuma novidade e que, ademais, poderia dormir sossegado que tudo estava andando em boas mãos.

Fiquei chocado, como eu lhe diria que o advogado o enganara durante quase 20 anos? Ainda mais quando este pobre senhor me veio com um sorriso no rosto dizendo que quando ganhasse o processo, poderia usar o dinheirinho para comprar uma casa ou coisa do tipo?

Estávamos sentados frente a frente, eu e o pobre senhor de Praia Grande, o que eu iria dizer? Nos segundos de silêncio em que permaneci estático, brotou em mim uma grande indignação e uma série de questionamentos. Como pode ter um advogado tão inescrupuloso mascarar a incompetência, enganando seu cliente? Como é que eu daria essa notícia tão ruim que, apesar de ter fundamentos jurídicos, é muito mais um problema de vida?

Disse como pude, despreparado, mas tive que dizer a má notícia. Sempre tive como lema que mais vale uma verdade dolorosa que uma mentira alegre. O problema agora era como aplicar este preceito e anunciar da forma menos arrasadora possível.

Na faculdade nos ensinam a resolver problemas jurídicos, não a contar más notícias ou a consolar nos momentos difíceis. Não é uma falha de ensino ou culpa dos professores para que a Representação Discente possa reclamar mais ainda sobre o ensino jurídico no Brasil. Longe disso, trata-se de uma lição imprescindível que só a vida ensina, mas que infelizmente muitos advogados do Largo de São Francisco passarão incólumes. Muitos deles serão renomados profissionais e atenderão causas tributárias, societárias, grandes questões de capitais, mas, pouco verão que, em muitos casos, o direito não se trata só de encontrar o meio mais eficaz para o cliente pagar menos tributos ou ter o melhor contrato possível. Não enxergarão que o Direito muitas vezes não trata só dessas relações tão impessoais. Não enxergarão que no fundo de diversas relações jurídicas há ali um ser humano com problemas dos quais muitas vezes a solução jurídica não é mais que um alívio para uma podridão às vezes insanável que é a miséria humana.

Disse, enfim, ao pobre senhor que não havia mais o que fazer e que o advogado o enganou durante este tempo, disse-lhe que não poderia fazer nada, mas perguntei, quase como protocolarmente como parte do discurso de despedida, se poderia fazer alguma coisa. E, apesar do choro de raiva e do semblante arrasado, ele me disse que sim, que podia fazer algo mais.

-Pois não, o que posso fazer pelo senhor?

-Eu queria pelo menos saber o que aconteceu com o processo, perdi eu sei porque você me esclareceu agora, mas eu queria saber o porquê eu perdi. Você poderia fazer isso por mim?

Disse-lhe que sim, não havia problemas. Só precisava que ele me trouxesse o processo, ou melhor, tirasse cópias deste para que eu pudesse ler e explicar.

Neste momento tomei outro baque pelo pedido inusitado. Ler o processo? Algo mais do que simples e corriqueiro para um estudante de direito e, ao mesmo tempo, tão significativo para uma pessoa humilde como ele que me confessou mal saber ler e escrever e que, para vir ao Departamento Jurídico, fez questão de cortas as unhas e lavar bem as mãos cansadas e sujas de graxa por conta do serviço pesado que realizava numa gráfica.  Aliás, significativo também pra mim.

Naquele momento percebi que não é a complexidade ou a dificuldade do trabalho que lhe dá o seu valor. Se simples ou detalhado, não importa, é secundário. Importa mesmo se a ação, não importa qual seja, tem algum significado a quem a realiza.

E pensar que pela manhã fiz uma prova com cinco folhas escritas em que, dentre as imensas e trabalhosas questões, era necessário fazer uma petição defendendo a Comissão da Verdade. Embasei minha argumentação no direito de Acesso à Justiça que deveria ser compreendido não só no sentido de poder pleitear algo em juízo, mas como também o direito de saber a verdade. Um direito das famílias, também vítimas da ditadura, em saber o que aconteceu com os filhos e parentes desaparecidos. A prova ficou boa, mas não significou nada pra mim a não da mesquinha ideia de passar numa matéria difícil. A bem verdade, o que estava acontecendo naquele momento no Departamento Jurídico valia muito mais.

Pensar que este tipo de problema não se restringe somente à ditadura e que era um problema muito mais real, ou melhor, aquele que estava naquele momento na minha frente, fez com que tivesse um mal estar jurídico.
Não raro passo meus dias na Teses de Láurea estudando e não raro, quando boto meu pé pra fora daquela antiga entrada do Largo de São Francisco, sinto que talvez tenha passado meu dia em vão. Ao ver e sentir aquele cheiro de miséria, sinto que todo aquele estudo, todas aquelas palavras pomposas de direitos humanos são bonitas, sedutoras, mas pouco efetivas. O problema não está tão distante como muitos internacionalistas pensam. Não está só em Haia, Nuremberg, Síria, Sudão ou nos problemas da ditadura, seja na América Latina, seja no Araguaia. O problema está literalmente encostado aos muros sólidos e por vezes letárgicos da ilustre Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

O pobre senhor ficou de voltar daqui a duas semanas, tempo para que, como me ele disse, pudesse se recompor do baque. Ao sair pela porta do Departamento Jurídico XI de Agosto parecia que tinha, além de ter deixado algumas lágrimas, deixado ali um pouco da sua alegria natural e da confiança na Justiça. Deixou também, mesmo a contra gosto, uma lição de vida da qual nunca esquecerei.
  

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Carta de Ano Novo

Tenho este hábito já há algum tempo, mas desta vez prometi não dar atenção a fazer uma lista das coisas que aconteceram neste ano que, se ainda não terminou, já respira moribundo à espera dos fogos da meia-noite.
Vou pular direto às resoluções de ano novo, primeiro porque já não resta muito mais tempo para se dar ao luxo de se perder admirando ou remoendo pores-do-sol passados. Além do mais, as coisas que aconteceram, sejam boas ou ruins, estão lá empoeiradas e não podem ser mudadas.
E, mesmo que a gente perca tempo revirando antiguidades para contar uma história dos tempos idos a quem quer que seja, não se dá com isso ao ouvinte mais do que uma falsa sensação de linearidade e coerência que não havia na época em que as ações narradas se desenvolveram de fato.
A verdade é que quero evitar o olhar pra trás não apenas pele senso de pouco utilidade que isto me trás. Mas, acima de tudo, porque penso que é preciso depositar esforços nas tarefas difíceis da vida. Afinal, é necessário muito mais coragem para encarar um futuro incerto e construir onde só reina incerteza do que para empregar esforços para enfeitar o passado, ocultando os erros e dar uma ludibriosa sensação de grandeza que em nada corresponde à realidade do que acontecera de fato.
Passarei então às metas do ano que se aproxima, mas reservo-os ao crivo do segredo, peço que compreenda. É que, embora não discorde que a realização deles dependa em boa parte de mim, nunca faz mal contar um pouco com a sorte, certo? E, como dizem por aí, sair cantando aos quatro ventos os próprios objetivos faz com que a sorte suma e o azar se paroxime.
Entretanto, peço que, mesmo sem saber quais são meus planos, que torça por mim, caro leitor.
Obrigado e desejo que tenha um ótimo 2012!

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Confiança

Confiança

Não se pede nas listas de natal ou se acha nas árvores da primavera.

Confiança

Não se acha por aí nas ruas por acaso, ou numa raspadinha de lotérica.
Confiança,

Com C maiúsculo,

Não se ganha, meu caro.

Se conquista.

E,

Pra tanto,

Leva tempo

(e quanto!)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Estrondo nas Arcadas

Do prédio de três andares, descia rumo ao segundo para uma aula nada animadora. Era manhã de quinta feira, ou melhor, final de madrugada, por volta das oito horas. O sono batia forte e, não fosse o estrondo tão grande, talvez não tivesse corrido pra ver o que ocorrera.

Uma barulheira de coisas se esparramando pelo chão e então, a cena. Uma garota desconhecida de cabelos ruivos cheios debruçada sobre os degraus. Coitada!Deve ter sido um baita tombo.
Preocupado, corro em sua direção. Estendo-lhe a mão para que levantasse e digo:
-Oi, quer uma ajuda?

E como se a minha mão tivesse sido, além de um ultrajante deboche, a invisível culpada por fazê-la tropeçar na escadaria, ela bufa e esbraveja como se quisesse recompor o orgulho:

-Agora não adianta! Minha calça já rasgou!

A minha mão ficara estendida ao ar, ficou por isso mesmo, tudo bem.

Mas, o que me assusta é que talvez não tivesse percebido que eu era, assim como ela, um estudante de direito. Já me disseram que com aqueles óculos de aro grosso preto eu fico parecendo arquiteto, até estilista. Mas, costureira?

Enfim, da história duas lições. A primeira é que eu preciso trocar de óculos urgentemente. A segunda é que, se eu quiser ajudar alguém de verdade, preciso andar - além do agasalho, guarda-chuva e caixa de remédios – com um kit que tenha agulha e carretel de linha na mochila! Ou talvez fosse melhor entregar como presente à moça desastrada e inapta em desviar uma perna da outra. Quem sabe dessa vez a ajuda não seja de mais valia que uma mão nua estendida e ela me dê um "obrigado"?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

A Solidão dos Mortos

Talvez devesse sentir mais vezes a solidão dos mortos. Ou melhor, pelo menos a que penso que eles sentiriam. Não a sensação de bater em vãos nos muros e dar gritos mudos ignorados por todos que já não tem nem tempo nem paciência para os que já se foram ou já não interessam mais. Mas a que vem da necessidade introspectiva de se voltar pra dentro e ouvir o que aquela voz tão presente e tão deixada de lado chamada Eu tem a dizer.

O que teria a dizer sobre as viagens perdidas, ou das garotas apaixonantes que perderam o encanto no instante em que se tornaram reais? Ou das vezes que fugi covardemente por ter medo de ser chamado de covarde? Ou dos elogios e carícias que aceitei fingindo ser verdadeiros prêmios quando na verdade não passavam de medalha por ter sido um bom perdedor?

Afinal é tempo de parar de se deixar viver pelas escolhas não feitas. Tempo de deixar de ser mero expectador das próprias conquistas. Tempo de se tornar protagonista do pequeno espetáculo nos dado sem contrapartida nenhuma chamado: vida.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Nota social

Sobreviveu à própria vida.

Nunca arriscou,

Fingiu amar a mulher que não amava

E o cão que nunca quis.

Se contentou com o emprego medíocre,

Com o sonhar a felicidade do comercial de tevê.


Dizia ter medo de morrer,

Mas era mesmo de viver

Descobriu tarde.


Deixou filhos ingratos,

Netos que não davam carinho

E que nem questão disso faziam.

Morreu em paz no domingo.

Ou já estava morto muito antes sem saber?

sábado, 11 de junho de 2011

Dia dos namorados e outras aflições

Com o dia dos namorados se aproximando, fico observando a enorme apreensão dos namorados e namoradas que não sabem o que dar de presente. Medo de ser repetitivo, ou de não agradar, enfim, uma centena de fatores a se considerar em busca do presente perfeito. Tanta aflição me lembrou certa conversa que tive a tempos com um amigo sobre o amor, ou melhor, o conceito deste. Explico melhor.

A discordância se deu em face de uma frase de um poeta que dizia que o amor é sentimento velho, mas que nunca saíra de moda. Desta idéia, criou-se uma dúvida: Será que os poetas, filósofos e transeuntes já esgotaram todas as formas de expressar o amor de tal forma que todas as que vierem não são mais que repetição?

A minha defesa era por dizer sobre a infinitude deste sentimento, ao passo que meu amigo ia radicalmente em sentido contrário, dizendo que de uns tempos pra cá tudo é senão repetição. Não vou expor os argumentos para não cansá-los, apenas cabe constatar que gastamos algumas horas e não chegamos a lugar nenhum.

Hoje a controvérsia veio à tona, tanto pela proximidade da data como pela falta do que fazer. Ponderei um pouco e percebi então que a discussão não era assim tão importante. Afinal, não importa se esgotaram ou não até a exaustão, se acharam um conceito perfeito ou se acabaram todas as possibilidades de expressar o amor.

Se ainda resta criatividade pra expressá-los além do “I Love You”, das flores e caixas de bombom é coisa menor pra se preocupar. O simples fato de já existirem diversas formas e possibilidades de escolha já deveria servir de alívio pra quem não sabe o que dar no dia dos namorados.

Mas é claro, inventar um modo inédito é sempre bem-vindo, seja para um presente inesperado, seja para uma desculpa fantástica para os que se apresentarem de mãos vazias amanhã.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Maio já está no final...

Maio já está no final, foi o que percebi no mesmo momento em que me passava um baque de realidade por já estarmos quase no meio do ano. Em geral, não me preocupo com isso, pois falar Maio parece me é muito com falar Março Trata-se apenas de uma pequena diferença de pôr o cinco no lugar do três, que também são muito parecidos (diriam que são iguais aqueles que tentam decifrar as minhas letras em que o “eme” pode ser um “ene”, um “dáblio” ou até reticências dependendo do caso,ou melhor, da minha mão preguiçosa).

Assim, fica pra mim sempre a sensação sem pé nem cabeça de que ainda estamos no começo do ano e que ainda há muito tempo para cumprir as promessas ainda não deixadas pra trás como as sete ondinhas puladas no ano novo, muito embora os confetes de carnaval (e talvez a ressaca também) já tenham passado há tempos.

Tal passagem não passou em branco desta vez. Resolvi então fazer um pequeno balanço, o qual compartilho com os que ainda não desistiram de ler este texto.

Nestes últimos cinco meses, muita coisa aconteceu para passar despercebido ou para considerar meros três meses trocados por cinco.Aprendi um pouco de culinária japonesa despretensiosamente (afinal, há de se ter criatividade no longo período de férias da faculdade) e acabei trabalhando por um tempo num sushi bar.

Resolvi também desentortar minhas pernas descompassadas e começar a fazer aulas de dança, das quais, embora já não sinta o meu quadril tão parecido com cimento ou não tenha pisado em nenhum pé alheio, ainda sofro um pouco.

Dei ainda continuidade a velhas metas e outras que também me acompanham, afinal, nem tudo na vida é revolução. Continuo praticando karatê e já consegui avançar bastante, e a faculdade vai bem, só eu que ando um pouco perdido nela.

Entretanto, algumas outras não são passíveis de serem ditas cumpridas ou não, já que demandam não só mais tempo para amadurecer, mas também vencer algumas centenas de quilômetros.

Contudo, a dificuldade destas não me faz desanimar, afinal, Maio já está acabando, mas os meses e anos ainda correm, comigo ou não, mas correm. Vou seguindo e lutando pelo que acredito. Ninguém disse que era fácil, certo?

terça-feira, 3 de maio de 2011

Alvorada de outono

Gosto de dias ensolarados e frios, daqueles em que a foto do céu azul de poucas nuvens enganaria o observador não fossem os cachecóis e casacos pesados dos que se aventuram pedestres nestes dias preguiçosos. A explicação desta predileção? Não sei ao certo. Talvez não precise de mais, apenas gosto e isto basta (assim como dizia o heterônimo de Fernando Pessoa que certas coisas não têm explicação, tem existência. Tem coisas que bastam por si só!). Talvez seja o caso, mas essa discussão não cabe nestas poucas linhas. Volto ao que ia dizendo.

Não são bons esses dias de outono em que a vida parece ir mais calma e a até os desgostos parecem ficar menos agitados? Dias como esses não combinam com stress ou preocupações, combinam com um bocejo gostoso e com passear pela rua de casaco e algodão doce na mão. Ou quem sabe, com esta junção tão contraditória de clima frio e paisagem ensolarada, vestir um suéter e ir lá fora tomar um sorvete de palito ou vestir uma bermuda para buscar um chocolate bem quentinho?

Talvez sejam dilemas grandes demais para dias leves de outono como este que passam como um sussurro gostoso nos ouvidos. Hoje, se até as nuvens estão com preguiça de andar por ai, quem sou eu para contrariá-las? Vou mesmo é me enfiar nestas cobertas macias xadrez rezando para que ninguém me notar aqui. Curtir um pouco daquela preguiça genuína que nos parece pecado frente às obrigações cotidianas que vêm implícitas no alarme do relógio programado para disparar logo mais. Quem sabe eu não adormeça e acabe encontrando o meu chocolate quente sem ter que sair de casa ou mesmo da cama? (Acordem-me apenas quando as nuvens resolverem se espreguiçar, até logo)

sábado, 9 de abril de 2011

Procuro...

Procuro a liberdade,

Mas não dos seus doces beijos e abraços macios em que me torno senhor de mim mesmo nas suas águas

Procuro a liberdade,

Mas não aquela que Deus (será Deus mesmo?) me promete se for vigia da minha própria carne,

Desconfio dessas recompensas que nos pedem antes a submissão.

Procuro a liberdade,

que não me faça me preocupar com as credenciais do passado ou promessas do futuro,

Procuro a liberdade,

A qual não sei se perdi pois não sei se a tive ou se pelo menos passou em minhas mãos.

Aquela que passará como um instante, mas eternamente lembrada.

Procuro a liberdade em mim.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A função de uma charge...

No Sábado passado, dia 12 de Março de 2011, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma charge do desenhista João Montanaro, que é no meu entender desrespeitosa, sobre a catástrofe ocorrida no Japão, fazendo alusão a uma famosa xilogravura de 1830, “Tsunami em Kanagawa”, Katsushika Hokusai .
Resolvi então escrever ao jornal sobre a péssima impressão que a charge me deixara, acredito que em determinadas situações certas manifestações não são cabíveis, tal qual como ocorrera com a charge. A minha carta fora publicada na edição desta segunda, 14 de março de 2011, e segue abaixo. Gostaria de pedir a todos que, se puderem, dêem uma olhada no meu escrito. Obrigado =)!

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"A página A2 do jornal Folha de São Paulo reserva espaço à opniões e críticas de jornalistas e outros membros ilustres da sociedade civil. Reserva espaço ainda, neste bloco de opniões, ao uso de charges como forma de expressão crítica retocada de humor de seus desenhistas.
Todavia, ao abrir o jornal deste sábado, 12 de março de 2011, nestá página, deparei-me com uma grande dúvida: qual o intuito daquela charge? Há intenção crítica?.
Qual a inteção do chargista João Montanaro ao retratar a catástrofe decorrente de um tsunami que arrasou o noroeste do Japão daquela maneira? Não se presta homenagem à tragédias, senão aos mortos decorrentes dela, nem se presta a realizar comicidade com fatos dessa natureza. A Guernica de Picasso retrata a tragédia da guerra, mas incute ao observador o horror que fora a Guerra Civil Espanhola, mas e a charge de João Montanaro?
Não me parece haver crítica, ou qualquer fundamento neste desenho para que mereça o espaço daquela página, carece de sentido. Caso seja a comicidade, penso ser importante rir da tragédia humana, mas rir inclusive daquelas em que não fora causadas por algum outro homem? Rir daquelas em que morrem centenas de inocentes? Que culpa temos no surgimento de um Tsunami?
Talvez se diga que é importante notas deste tipo para que o leitor saiba do ocorrido. Mas, acredito que notas sóbrias, notícias na página Mundo, ou faixas de luto são mais próprias para a ocasião. Momentos como esse não comportam essas charges.

Obrigado pela atenção,

Danilo Goto."

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Pra acreditar...

Estou doente. Não é o melhor jeito de se começar um texto senão se o que se quer é deixar um tom de drama ou piedade, não é isso. Enfim, não mereço a sua compaixão, afinal, trata-se de uma mera gripe e estou assim por culpa minha. Tomei chuva por esquecer voluntariamente o guarda chuva fechado na mão direita. Que mal faria andar devagarzinho e sentir os pingos no rosto? Às vezes se paga um preço por querer voltar a ser criança.

Faltam duas provas, oito já passadas e mais quatro trabalhos vencidos em noites madrugadas, falta pouco para as férias, longos três meses dos quais não saberei o que fazer com tanto tempo e alguma dose de tédio, embora com surpresas espalhadas em pacotinhos ao longo desses dias que estão por vir.

É domingo e preciso estudar pra essa maldita prova de contratos, saber minuciosamente o mecanismo de compra e venda, da locação e ler um calhamaço de mais de cem folhas de letras não maiores que a da bula do remédio. Respiro mal, tenho preguiça, a tosse me acomete, não consigo me concentrar pra prova, quero dormir. Acordo as oito, o dia que tem que render não rende. A minha cabeça gira tal como se estivesse acabando de sair de alguma ressaca, não poderia estar pior: as olheiras denunciam o meu péssimo estado.

Já é quase onze da noite, meu corpo não agüenta mais o estudo mal feito durante o dia, abafado de mais de trinta graus. Sequer cheguei a cumprir a meta de ler as cento e cinqüenta paginas, mal passei da sessenta e três, mas consegui pensar nas mais variadas desculpas que daria ao professor por ir tão mal na prova.

É só uma nota, que mal terá? Preciso apenas de dois pontos pra passar. Não, não há mais o que fazer, a minha ultima esperança é rezar, deixar na mão de Deus.

Pensei numa solução mais próxima, Deus tinha mais com o que se preocupar. Olho para o meu pulso direito,fecho os olhos e peço para que aquilo que tinha estudado, mesmo que mulio mal, fosse o que cairia na prova e também que a minha saúde melhorasse. Fico em silencio por alguns instantes, então beijo duas vezes a pulseirinha da sorte, um para cada pedido e entrego na mão do acaso ou da sorte, que seja. Vou dormir.

De fato acordo melhor, com um pouco de tosse ainda, mas não tão enfermo como antes. Beijo o pulso pela terceira vez, agora em sinal de agradecimento pela melhora,.

Pelo menos uma coisa, mas e agora? Daqui a trinta minutos estarei sentado naquela cadeira, dura esperando a pior das hipóteses de ter que consumir mais algum tempo no estudo dessa matéria tão entendiante. Não, não há o que se remoer, pensava , agora é encarar de frente.

A prova chega, não há mais o que fazer, oito questões que me consumiriam no mínimo duas horas e quatro folhas escritas mais um pulso dolorido de tanto escrever se soubesse a matéria perguntada, ou menos de quinze minutos para preencher o cabeçalho, responder uma ou outra questão e deixar uma desculpa ao corretor da prova. Dou uma olhada na folha rapidamente, dou outra pra tentar acreditar no que acontecia. Beijo a pulseira da sorte pela quarta vez. Não era nem dez da manhã e meu dia já estava inexplicavelmente ganho.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A partida

O novo olhar do dia ,

o passado preto e branco arrasado,

mas não descartável,

vira batido,

não sucata.


O sol de crista e coroa

vem bem intencionado.

Um corpo se livra das correntes,

Atira-se do abismo.


O futuro vem ao nosso encontro,

o tempo voa,

vira presente,

ultrapassa e passa passado.


Rasante em nosso peito é o instante,

mais uma pintura amassada,

novo papel de parede.


As malas meio abarrotadas

Deixam cair certos pertences na estrada.

Não vemos,não há tempo de recolher.

Não queremos,há dores a esconder.


Mas, percebemos algo:

As memórias ficam.


A casa está putrefata,

O trem está vindo,

Depressa!

A nave não cobra passagem,

Mas não garante viagem!


Não olhe para as águas fontes das marcas,

Mire o mastro que se levanta aos céus.

É a vela de um novo vento

Que a espera para retirar certas teias mal resolvidas.


Sopre firme, avante a novos reinos e nuvens.

Apenas não esqueça o motivo de sua ida:

Não chegue a novos ares sem saber quem fora,

Não jogue âncora à terra sem saber o porquê fugira.


Não pude embarcar em mesma nave.

Apenas peço que não se esqueça

Do meu lenço com passagens da nossa história.


Quando encontrá-la,

serão novas marcas,

novos rostos,

novos cheiros,

novos gostos,

novo cais.


Espero cruzar mesmo mastro

e hastear bandeira comum,

mas até lá ,

guardo com carinho

a pequena formosura

que fora essa aventura em versos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Pra ver jibóias ao invés de chapéus

Hoje é dia doze de outubro, para os religiosos, dia de Nossa Senhora Aparecida, para os nem tanto ou os menores, é dia de receber presentes, dia das crianças.

Lembro que durante a minha infância costumava receber dinheiro dos meus pais. Não tinham muito tempo pra comprar presente, também não os culpo. Meu pai trabalha de segunda à sábado das oito da manhã às oito da noite e de domingo costuma ficar boa parte do dia, mamãe também o ajuda e ainda tem os afazeres domésticos.

Não posso dizer que eles não se importam comigo, ou que não me conhecem e pouco se preocupam com o que eu realmente queria. Dinheiro não trás felicidade alguma, mas o gesto de se lembrar de mim já vale muito mais que qualquer brinquedo podia me dar.

Engraçado que mesmo com dezenove anos, já quase vinte, meu pai entrou no meu quarto, enquanto eu escrevia algum e-mail, e me deixou dinheiro.

- É pra pagar o quê? – perguntei.

-Feliz dia das crianças – foi o que me disse com um sorriso no rosto

Levantei da cadeira e dei-lhe um abraço com há tempos não dava.

-Obrigado

Desconfio que meu pai talvez não saiba ao certo a minha idade, afinal, ele mal sabe a dele, como se lembraria da minha? Talvez ele ainda pense que tenho treze ou quatorze anos, mas prefiro pensar que ele ainda enxerga em mim algo de criança, o que me deixa muito feliz.

Penso que não o simples passar do tempo não é suficiente pra dizer que passamos de fase. Com doze viramos projetos de gente grande pra então com dezoito viramos adultos? Até pode ser, mas confesso que isso não trás muitas vantagens, no mais dá pra dirigir carro, tomar umas no bar.

Aliás, nunca devíamos deixar de sermos crianças, no mais, deixar de ser infantis. É necessário conservar certos sonhos simples como poder voar ficar maravilhado com o caminhar das nuvens no céu, pegar pinguinhos de chuva com a língua, comer doce até doer o dente.

Ser criança é enxergar aquilo que os adultos negam. Aquilo que dizem que a maturidade já lhes ofuscara os olhos. Não, que engano! Ser maduro nada tem a ver com deixar de ser criança, tem sim com deixar de ser infantil.

Gosto de ser bobo, deitar e rolar na grama, derrubar os outros nela, rir de bobeiras e isso tudo sem deixar de conservar certas responsabilidades.

Ok, você pode até dizer: o que um garoto de dezenove anos sabe sobre responsabilidades? Sinceramente, pouca coisa. Mas eu sei que, sabendo mais ou menos, não deixarei de ser criança, porque assim posso ver aquilo que adultos se negam a ver, porque dizem ser muito ocupados, sem tempo, mas sem saber o porquê ou pra quê de viverem numa vida frenética. Quando conseguirão parar pra ver o sol entre as nuvens e achar isso bom?

Quero ver o céu se movendo e pintá-lo de lápis de cor, quero ir até a lua e colocar algumas estrelas no bolso. Quero nunca colocar a culpa em responsabilidades quando deixar de me divertir soprando bolinhas de sabão.Quero apenas poder sempre olhar uma jibóia que engoliu um elefante quando muitos virão apenas um chapéu.

Enfim, Feliz dia das crianças a todos ;)!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Trufas

Mamãe não é a maior fã de doces, mas, desde que abriu uma Cacau Show a 50 m de distância da ótica em que trabalha, ela sempre compra um ou outro chocolate.

A última aquisição foi um apanhado de trufas, umas 10, se não me engano.

- Tava caro, mas como eram 10 por tantos reais aproveitei a promoção.

Como se isso justificasse comprar tanto chocolate, melhor seria ser sincero e dizer que comer doces é parte da filosofia de vida ou assumir descaradamente o vício por açúcar, ou os dois ao mesmo tempo.
Peguei a trufa de torta holandesa, a qual como enquanto te escrevo neste exato momento, meu teclado com rastros de chocolate não me deixam mentir.

-Comprei esse aqui também, a moça da loja era diferente.

-É do quê?

-Dá uma olhada aí, acho que é chocolate com pimenta, se tiver coragem pode comer.

Mal sabia a minha mãe que eu já comi, não tal trufa, mas algo que era pimenta e chocolate ao mesmo tempo e não era também doce. A memória veio e me lembrei de ter me enfiado na torneira pra tirar aqueles resquícios de semente de dedo de moça da minha língua.

Deu-me certa nostalgia e uns risos, inclusive de alguém metendo goela abaixo meia garrafa d’água. A trufa continua por lá, esperando alguém corajoso. Estou com uma certa azia, não sei se é por pensar no que aconteceria se eu tivesse engolido por inteiro aquela pimenta londrinense ou se é por que eu tive três cafés da manhã hoje.

Muito embora tenha jurado não provar mais dessa combinação traumática, acho que certa saudade me fará encarar essa trufa. Talvez, terá um gosto melhor que aquele feito com chocolate alpino derretido no fogão ou no microondas, mas com certeza não terá o mesmo encanto e as mesmas risadas. Definitivamente, não é a mesma coisa.

domingo, 22 de agosto de 2010

Estação Paraíso

Quando o sorriso se assemelha mais a um ponto final,
Os olhos não miram mais longe que um palmo do nariz.
Nessas horas é preciso parar de tentar fugir dos fatos consumados
Ou ser sonhador
De tempos consumidos.
É preciso se sentar,mesmo que na calçada,
Respirar fundo
...e...
... olhar para o céu.

Os belos fios dourados tocando as pessoas percorrem distâncias inimagináveis.
As nuvens de grandeza imponente e leveza contraditória
Abrem caminho para semear os campos
enquanto o vento sussurra um canto de sensibilidade.

Nessas horas, é preciso abdicar de certas coisas.
O trabalho pode acumular.
A esposa e as contas esperar.
As responsabilidades também.
Às vezes é importante parar de pagar a conta para outros,
É preciso saldar a dívida consigo mesmo.
Às vezes é preciso se manter distante do mundo para aprender certos valores adormecidos em nossa mente apenas
Esperando
Um olhar,
Um espirro,
Um gesto patético que seja.

Não é mais hora de procurar os detalhes do mundo,
Desejar sem saber por que desejou
Ou angariar mais medalhas
Ou latões coloridos no peito.
É tempo de perceber o pequeno mundo
Dentro de um vidro poeirento chamado Eu.